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Chute, esse formidável livro de Maria Ignez Barbosa, surpreende pela multiplicidade de tempos e dinâmicas que apresenta. Do “tempo que não mais flui”, vivido durante a pandemia, ao tempo de múltiplos fluxos da arte, que pode sincronizar Vermeer e Nan Goldin, De Chirico e Rachel Whiteread, Van Der Weide e Andres Serrano.
A primeira parte do livro reúne os poemas escritos sob a covid-19. A linguagem coloquial e irônica da autora não esconde a angústia desse tempo sem voo: “fique em casa / horizontal / fugindo do mal secreto”. Tempo de máscaras que impedem de “ler o livro dos lábios”, de boletins diários de desaparecidos nos deixando irreconciliados com a vida, assustados com a morte. Tempo de uma dinâmica negativa contra o qual a poeta dá testemunho do sol e da asfixia.
A segunda parte, “Em busca do poema”, realiza a necessária sondagem do instrumento com que qualquer poeta sonda o mundo: a linguagem. E aqui os poetas mais convocados pela autora para uma espécie de diálogo são Maiakóvski, por conta de sua linguagem direta e crítica do mundo, e Fernando Pessoa, este principalmente na terceira parte do livro, “Buscando ser”, pelo desassossego necessário de se investigar a experiência interior. Menos com o desejo de definir quem se é do que para “infinir” (expressão de Didi-Huberman) quem se pode ser.
A parte final, “Aos meus olhos”, talvez seja aquela que mais imediatamente pode encantar um leitor que toma contato pela primeira vez com a poesia da autora. A riqueza de referências, detalhes, sutilezas, percepções, passa a desfilar à nossa frente em modo quase caleidoscópico. É uma festa para os cinco sentidos. Basta ler um poema como “Ao sussurrar das pequenas coisas” para se ter certeza de estarmos diante de uma poeta craque, de chutes certeiros.
O aspecto memorialístico, espalhado um pouco ao longo do livro mas com alguma concentração na sessão “Entretantos”, valeria também uma análise detida que o espaço exíguo de uma apresentação não permite. Mas diga-se que muito da delícia do livro vem dos encontros, mais ou menos circunstanciais, com gente como Charlotte Rampling, Murilo Mendes, um indiscreto pintor surrealista espanhol e Guimarães Rosa. Mas é até bom deixar para o leitor o prazer e a surpresa de tantas descobertas possíveis nesse realmente precioso livro.
Carlito Azevedo
Nome
CHUTE
CodBarra
9786559057078
Segmento
Literatura e Ficção
Encadernação
Brochura
Idioma
Português
Data Lançamento
28/02/2024
Páginas
160
Peso
320,00
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