Utilizamos cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossa política de privacidade. Política de Privacidade..
O livro “Árvores, florestas, madeiras: ensaios históricos”, organizado por Lorelai Kury (PhD, Casa de Oswaldo Cruz), reúne textos de seis historiadores que analisam a exploração inconsequente da natureza brasileira. Sem a pretensão de esgotar o tema, buscam abordar a trajetória de distintas regiões. Por meio de textos e um amplo conjunto de imagens, vimos que há um processo constante e avassalador de diminuição das florestas e de transformação radical das paisagens brasileiras. Torna-se claro também que no século XX houve uma aceleração poderosa dos processos de devastação das matas. Em alguns casos, percebe-se um certo equilíbrio entre usos e conservação, o que pode servir de inspiração para medidas atuais.
No ensaio inicial, Marcelo Henrique Dias aborda a economia florestal para além do pau-brasil, com ênfase nos usos das árvores pelas populações coloniais. No sul da Bahia e na zona litorânea em geral, os manguezais foram um manancial de plantas e árvores tanto para os povos originários quanto para os adventícios, que incorporavam a experiência e a técnica indígenas para transitarem e subsistirem. Um dos ramos mais dependentes das técnicas locais foi o da navegação local. A madeira brasileira tornou-se essencial para a construção naval portuguesa, sendo exportada também para outros países da Europa. Entre usos populares, locais e em escala atlântica e global, as florestas litorâneas persistiram extensas até o século XX, quando o processo de desmatamento se acelerou. O conhecimento das práticas antigas e locais de uso das florestas pode ser um aliado das ciências ambientais para a preservação e regeneração das matas e manguezais costeiros.
O segundo ensaio, assinado por Lorelai Kury, trata da construção de conhecimento sobre as florestas litorâneas nos períodos colonial e imperial, em particular na região do Rio de Janeiro, tendo a história natural e a botânica por tema central. A partir do século XVIII começa a se afirmar uma prática científica baseada em coleções e publicações, que se pretendia universal e independente dos saberes locais. Muitos agentes participaram da sistematização de informações sobre árvores e madeiras brasileiras, com base em saberes indígenas, mas também com outros interesses e métodos. Uma árvore como o tapinhoã, extremamente valorizada para a navegação interoceânica, começou a rarear já no século XVIII; não se sabia nem mesmo como reproduzi-la, porque isso nunca tinha sido necessário antes. Para a botânica, ela só passou a existir em meados do século XIX, graças aos trabalhos de um naturalista brasileiro, Francisco Freire Alemão, que percebeu a urgência de organizar uma história natural das grandes árvores e florestas.
Alda Heizer voltou seu interesse para a presença das madeiras nas grandes exposições nacionais e internacionais do século XIX e início do século XX. O Brasil pretendia figurar nelas como uma imensa monarquia civilizada na América do Sul, rica em produtos naturais. A escravidão, ou qualquer outra questão que pudesse não ser bem vista, era ocultada. Jardins tropicais, café, algodão, borracha, produtos regionais como couros, meles, rendas ou artesanato com fibras preenchiam os enormes espaços dos pavilhões brasileiros. As madeiras tiveram lugar de destaque, já cortadas e polidas, dispostas de tal modo que a relação com a floresta resultava abstrata. A fama das madeiras brasileiras datava ainda do período colonial, pois muitos palácios europeus tinham sido ornamentados com elas. Enquanto as ricas nações centrais expunham artefatos industriais metálicos ou com materiais que na época expressavam o futuro, o Brasil deveria impressionar pela exuberância da natureza, transformada em mercadoria. O capítulo de Sandro Dutra e Silva discorre sobre a particularidade da vegetação do interior do Brasil, nas regiões de predomínio do cerrado. As primeiras sínteses de história natural elaboradas por naturalistas estrangeiros dividem o país em duas grandes áreas: campos e florestas. Por muito tempo a mata litorânea foi considerada ideal para o Brasil, a zona mais nobre e mais propícia à civilização, ao contrário dos campos, que não figuravam como dignos de preservação, tornando-se o lugar por excelência para o desenvolvimento agrícola sem freios. No entanto, paralelamente às simplificações, a variedade de ecossistemas existentes nas áreas dos “campos” foi sendo inventariada e analisada. O autor ressalta a existência dos capões – ilhas de matos – de riqueza extraordinária, tanto vegetal quanto animal. Desse modo, as árvores do interior sempre estiveram presentes na paisagem brasileira, embora desde o século XX venham sendo extintas, como o imenso capão chamado Mato Grosso de Goiás, do qual podemos retraçar a história.
Eunice Sueli Nodari narra uma história da transformação da paisagem do Sul em função da diminuição das florestas marcadas pela ocorrência de araucárias. A chamada Floresta Ombrófila Mista é marcada pela presença desse pinheiro-brasileiro em meio a outras árvores, como canela, imbuia e pés de erva-mate. A araucária deu suporte à imigração estrangeira para os estados sulinos. Muitas serrarias brotaram na região a partir do século XIX, assim como ferrovias. Começou em seguida o desmatamento em larga escala, característico do século XX. A partir da década de 1970, as florestas com araucárias vão sendo substituídas por pinus e eucaliptos, com a instalação de indústrias de celulose na região. Grandes cultivos como o da soja e a construção de hidrelétricas também contribuíram para a devastação dos bosques. Atualmente, a paisagem tradicional da região basicamente só pode ser encontrada em áreas de preservação, nas quais reina a beleza da araucária. Apesar dessa caracterização assustadora, podemos perceber que a conscientização ambiental vem despontando como um aliado forte para uma convivência sustentável com as florestas.
No último ensaio, José Augusto Pádua traça um panorama da Amazônia em relação ao restante do Brasil. De um imenso vazio representado nos mapas, as florestas do norte irromperam o século XXI figurando como uma incrível reserva de vida. De espaço sem história, a região mostra-se hoje com densidade civilizacional de muitos milênios. O autor narra um cenário paulatino de desenvolvimento, passando pela construção de cidades durante o Iluminismo, pelo boom da borracha e por projetos mirabolantes de modernização predatória. A grande transformação da paisagem amazônica esperou, no entanto, a década de 1970 para se impor. Grandes rodovias, criação de gado e mineração a ameaçaram e ameaçam. Por suas dimensões e singularidade, a Amazônia tornou-se o grande ícone da luta ambientalista. A grandeza da floresta só é proporcional às dimensões da resistência dos povos originários e de todos aqueles que entendem que nossa própria sobrevivência depende da natureza viva.
As pesquisas desses seis autores pretendem conceder às florestas, árvores e madeiras o lugar central que merecem nas análises históricas. Estes ensaios somam-se aos inúmeros trabalhos nacionais e internacionais de reavaliação das pegadas humanas no planeta. Pensar uma história das árvores e das madeiras abre espaço para uma série de reflexões sobre a história do Brasil e suas dinâmicas. O primeiro passo em direção a uma reavaliação da ocupação da América do Sul, de sua colonização e de seus desenvolvimentos é remapear nossas prioridades e reconsiderar se a riqueza maior está na mata de pé ou nela reduzida a cinzas.
Por fim, a obra se destaca pela extensa pesquisa de imagens, que resgatou documentos de fontes no Brasil e no exterior. O conjunto é disposto em ordem cronológica e se constitui de mapas em pergaminho, iluminuras, manuscritos, códices, aquarelas, litogravuras, desenhos, quadros a óleo e cartões-postais, terminando com fotografias atuais geradas pelos melhores fotógrafos de natureza do país.
Nome
ARVORES, FLORESTAS, MADEIRAS: ENSAIOS HISTORICOS
CodBarra
9786550860059
Segmento
Ciências
Encadernação
Capa dura
Idioma
Português
Data Lançamento
12/11/2022
Páginas
284
Peso
1570,00
Aviso de Cookies
Usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade.