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A realidade latino-americana é descomunal e só se entrega aos artistas que exploram suas dimensões míticas. É o projeto de fazer de um livro de contos um palimpsesto de tempos e espaços que se interpenetram o que encontramos nas narrativas de João Câmara convocadas para este A caminho de Querétaro.
A primeira coisa que chama a atenção nelas é a variedade de lugares, a maioria na América Latina – também há locações europeias –, percorridos por personagens que vão do presente para o passado e vêm do passado para o presente, em um trânsito oscilante e incontrolável. Assim, núcleos dramáticos aparentemente paralelos, sem comunicação explícita, se cruzam para compor histórias com material humano e social o mais diverso e, no entanto, aglutinado nesse espaço apertado que é o conto, mesmo quando os contos são quase novelas, como é o caso da maioria das peças neste volume.
Mestre absoluto das artes plásticas, que se fazem presentes nestas páginas não como ilustrações, mas como iluminações, João Câmara se vale, para escrever, da técnica do bricolage. Junta muitas passagens e pessoas, tirando-as tanto dos livros de ficção e história quanto de sua biografia e dos noticiários, para construir relatos que aproximam por justaposição aquilo que pertence a substratos distintos e distantes. Assim, os contos apresentam uma estrutura alternada, compósita, que cria continuidades irônicas ou dramáticas. Nunca lemos apenas uma única história. Elas são no mínimo duas que dialogam enquanto espelhamento de sentido, fazendo-se muitas vezes várias histórias enfeixadas em uma linha narrativa que cresce rumo a um final imprevisível.
A estrutura fragmentária, portanto, está a serviço de uma percepção da existência como concentração de uma energia crepuscular. O final dos contos traz uma metáfora, geralmente visual, para a solidão e a falência que atingem os personagens. Na literatura descomunal de Câmara, autor avesso ao minimalismo formal, a linguagem se espraia em todos os sentidos para, no desfecho aberto, criar um corte brusco que deixa no leitor um travo de orfandade ontológica.
Se seus narradores múltiplos (pois muitas vezes há vozes dentro da voz principal) estão sempre buscando o resgate do passado, do que ficou oculto em sua materialidade ou imaterialidade memorialística, eles exercitam uma tentativa de compreensão do vivido, tal como diz Bertrand: “Discernir entre memória e presente lhe era um exercício constante”. A dificuldade está nesse discernimento, pois nada é exatamente o que parece em nossas latitudes.
No último texto, em quatro movimentos encadeados, João Câmara dá vida a ilustrações de personagens ficcionais e históricos que passam a vagar em outros tempos, em busca de uma compreensão do mundo onde eles só podem existir como fantasmas que pensam, afastados das experiências sensoriais, como o prazer sexual, o frio, a fome etc. Os personagens saem dos livros e se vinculam à vida de seus leitores para um transporte futurista a sociedades mais contemporâneas. A que mundo eles pertencem? Ao dos livros, embora ganhem essa historicidade deslocada que os transforma em trânsfugas culturais.
É assim que tais narrativas se apresentam ao leitor, como calendários, geografias e identidades embaralhadas, que se reorganizam em vocabulário e estrutura proliferantes para dar conta de nosso continente. E é por essa exuberância de linguagem que se dá em João Câmara a representação política de uma América Latina que não cabe na palheta ocidental.
Miguel Sanches Neto
Nome
A CAMINHO DE QUERETARO
CodBarra
9786558970293
Segmento
Literatura e Ficção
Encadernação
Brochura
Idioma
Português
Data Lançamento
16/05/2024
Páginas
446
Peso
680,00
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